Edição Europa

2019 Número 1

Filosofia

A tolerância da compreensão

“É ainda mais evidente que devemo-nos tolerar uns aos outros, porque todos somos fracos, consequentes, sujeitos à mudança e ao erro”.
Voltaire

Vivemos numa sociedade cada vez mais plural e multicultural, formada por uma variedade e grupos sociais com costumes, crenças e práticas diferentes, e no nosso afã para conviver pacificamente numa sociedade democrática, justa e livre, tem tomado relevância o princípio de tolerância como valor fundamental no âmbito social, político e ético.

Desde o ponto de vista filosófico, a tolerância pode-se conceber como um valor ético, como uma virtude, uma boa qualidade moral, necessária para reconhecer ao outro, e respeitar a sua diferença. Uma virtude pública compartilhada por todos, independentemente da relatividade e pluralidade das sus crenças, um valor essencial e necessário para conseguir os objetivos de justiça, paz e liberdade das democracias atuais.

Desde as suas origens o termo “tolerância” tem tido vários significados que podemos resumir em duas acepções principais. A primeira, que chamaremos sentido negativo, provém do verbo latino tollerare que significa suportar as crenças e práticas dos outros a pesar de ser contrárias às nossa, quer dizer, conviver com aquilo que desaprovamos, e uma segunda acepção que provém do grego tálanton que significa “balança”, e infere a procura do equilíbrio das crenças e práticas dos distintos grupos humanos que conformam uma comunidade política.

Desta forma podemos considerar duas conceições, uma negativa que tolera as diferenças de quem são diferentes e por outro lado, uma positiva que considera a diversidade cultural dos outros e tenta os compreender.

Estas duas conceições conjugam-se hoje em dia para conceber um princípio de tolerância que permita a convivência pacífica, criativa, justa e livre dos diferentes grupos humanos e culturas que conformam sociedades democráticas.

Um grupo humano que se constitui geralmente da pertinência a um território, uma ideologia, uma religião, etc., mas que se consolida e fortalece a sua identidade por meio de mecanismos de desconhecimento e exclusão de outros grupos. Isto quer dizer que os mecanismos de exclusão de outros ajudam a consolidar a identidade do grupo. Estes mecanismos podem aumentar as diferenças até chegar à indiferença, à hipocrisia, e o pior, ao confrontamento e à violência.

Parecesse que a identidade, crescimento e consolidação do grupo cresce de forma inversamente proporcional à da sua tolerância aos outros grupos. Neste sentido, a tolerância e a identidade do grupo são duas forças, inclusão e exclusão, que se contrapõem. Ao mesmo tempo que queremos tolerar outras culturas práticas e crenças que nos são alheias, ao enfatizar as suas diferenças conosco tendemos à sua exclusão. Um reconhecimento próprio a partir do desconhecimento dos outros.
Isto cria um dos principais problemas na aplicação efetiva do princípio da tolerância, segundo o filósofo Gadamer, faz a tolerância a virtude mais infrequente.
Um exemplo deste comportamento é representado por alguns movimentos nacionalistas que desenvolvem uma superidentidade e se fazem demasiado exclusivos, pelo que geralmente os fazem desembocar na intolerância reversível e irracional.

Para conseguir uma tolerância mais efetiva, que ajude à convivência multicultural, devemos limitar as nossas práticas e crenças, e desta forma limitar a nossa identidade grupal para que não incida sobre a convivência com os outros. Além do respeito sustentado pela tolerância na sua acepção negativa, é indispensável a tolerância positiva, a compreensão dos outros, aprender dos outros, o qual se traduz em como interatuamos, enfrentamos e equilibramos as nossas diferenças, como debatemos os nossos sistemas de crenças e práticas no espaço público, o que poderíamos chamar como a tolerância de compreender.

A tolerância implica sempre respeito, e no melhor dos casos, compreensão.

José Ramón Ortíz / Matemático e filósofo de formação, escritor por vocação. Estudou nas universidades de Sussex (B.Sc.) e Londres (M.Sc.), na Inglaterra. José Ramón é também Doutor em Educação (Nova Southeastern University, Estados Unidos).

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