Edición Europa

2024 número 4

Soy una cuestión de identidad

Cinema

La trinchera infinita

A Trincheira Infinita

A FUGIR PARA DENTRO

O exílio que nos empurra para dentro e transforma a nossa sobrevivência numa prisão, torna-se “INSILIO”. É um banimento voluntário, uma “fuga presa”, que nos agarra ao que sentimos como nosso, apenas para nos apercebermos de que o perdemos. 

“A Trinchera Infinita” é um filme sobre “insiliados”, a história de um país, de famílias que, sem se aperceberem, fugiram para dentro e, nessa fuga, se perderam. É uma experiência universal, contada a partir de códigos locais profundamente enraizados na pele dos espanhóis.

A Espanha de 1936, erodida por um franquismo expansivo e poderoso, é narrada através das vidas de Higinio e da sua esposa Rosa. Eles representam essa nação perseguida e anulada pela ditadura. Medo, suspeita e dissimulação são os protagonistas de uma história baseada em fatos reais. As «toupeiras» (“Los Topos”) da Guerra Civil Espanhola eram homens que, para salvar as suas vidas, foram obrigados a se esconder por dècades, atrás das paredes das suas casas ou no subsolo, o que gerou um paradoxo doloroso: para escaparmos, trancamo-nos, ou para sermos livres, aprisionamo-nos.  Isso aconteceu a famílias e a um país entero que teve de limpar o pó de palavras enferrujadas, enquanto a suas vidas eram enterradas em busca de um esquecimento que as protegesse. Termos como «cercado», «esconder», «perseguir», «enterrar», «fugir», «perigo» e «Franco», entre outros, moldaram essa nova maneira de perceber a existência a através do ranhura da porta, do buraco na parede, ou de uma fissura chamada medo, o que justifica, aceita, permite e mente. 

O filme convida-nos a reflectir sobre as trincheiras que, como aqueles «topos», construímos e, sem querer, transformamos em outras prisões, nossos armários. Há tantas trincheiras nas quais nos refugiamos que muitas vezes não percebemos que a nossa vida é como a de Higinio. Cultivamos trincheiras ideológicas, religiosas, sexuais, de nacionalidade; trincheiras culturais, de poder, de informação, de tempo e até mesmo do próprio corpo. Fossas existenciais que desdobram um universo de contradições no qual, como Higinio, acabamos por cavar túneis que, na realidade, são túmulos.

O ser humano, em maior ou menor grau, é um ·”insiliado” que, para compensar o seu desenraizamento, cria guetos, constrói espaços pessoais dentro de outros que perdeu. Isto acontece a Higinio, a Rosa e àqueles que, refugiando-se em covas tangíveis ou virtuais, tais como redes sociais, se perdem e se anestesiam. A vida pode ir embora entre os murmúrios, na rotina e na pobreza que nos fecha a novos pontos de vista. Ë que espiar a vida de outras pessoas não significa que estejamos a viver a nossa própria vida. 

Garaño, Goenaga e Arregi, os realizadores do filme, apresentam-nos um persistente estado de ansiedade que nos cansa e exige uma forma de sair do oculto para à luz. Este “topo» é instado pela sua esposa e filho a mudar a sua existência, a ousar e a aprender a viver apesar do seu medo. 

“A Trinchera Infinita” é, na minha opinião, uma peça extraordinária que nos convida a observarmo – nos para parar de espionar, mostra-nos ffisuras para sair, avisa-nos do risco de repetir a nossa história pessoal ou colectiva e mostra-nos a possibilidade de mudar nossas vidas.


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