Edição Europa

2019 Número 1

Psicología

Ciúmes dos teus olhos

quando vêem…

Esse sentimento que nos descompõe violentamente e submerge-nos em total vulnerabilidade e invalidez, como se o outro decidisse ir embora repentinamente com essa pessoa, esquecendo-nos para sempre, deixando-nos abandonados e rejeitados. Essa raiva que sentimos quando vemos ao ser querido, aparentemente sentido como uma propriedade privada, que se desloca por outros interesses, pondo em evidência que não somos o seu centro nem o seu foco de atenção permanente.

Negamo-nos a compartilhar com essa pessoa amada, pois ameaça tudo quanto está reafirmado em nós. Se a visão de mamã diz que sou “o mais bonito do mundo” e depois aparece outro rei de beleza, fica em evidência que era uma ilusão. Compartilhá-la é aceitar que valgo tanto como todos e não mais, que o que nos une é um vínculo com efeitos, com histórias e significados, insubstituível, mas não exclusivos.

Pensar que a inclusão de outros num vínculo enriquece a relação, é uma traição a todos os meus desejos infantis de superioridade e possessão.

Aprender a vincular-se já é difícil – exige respeitar ao outro – e vincular-se com outros que estão em relação entre eles e comigo ao mesmo tempo, supõe reconhecer neles a complexa capacidade de estar em muitas relações simultâneas, sem ter que abandonar nenhuma, sem despreciar ninguém.

Numa Tríada (mãe, pai e filho; três amigos, chefe e subalternos etc.), dois podem competir pela atenção de um terceiro, ou dois podem-se relacionar em função de um terceiro (por exemplo, um casal que cria o seu filho). Cada membro da tríade pode participar de forma ativa em dois grupos (casal, madre – filho; pai – filho), e em outro momento cada membro pode participar em forma passiva (observando, desfrutando, cuidando etc.) como terceiro, e por último, como membro ativo da tríade. Aprender a partilhar em grupo, é poder assumir estas distintas posturas de forma flexível em função do desempenho do grupo.

Abandonar as gratificações de uma relação diádica muito estreita, em prol das riquezas dos vínculos compartilhados, donde outros podem aportar onde eu não posso, permite a todos os membros do grupo gerar soluções melhores para todos.

Embora, cada vínculo requerer de certos espaços de exclusividade, confidencialidade e intimidade, onde não há espaço para terceiros, e a intromissão desses terceiros denota um quebre ou falta no vínculo ou falha ou quebre que precisa ser reconhecido para poder ser separado.

Muitos ciúmes falam de uma diade que não se tem podido conformar bem, de falta de real intimidade e confiança. Outros ciumes guardan este espaço íntimo das muitas possíveis competições e amenças. E também há ciumes que denotam quão fácilmente as pessoas compitem com outro pelo ser amado.

Carolina Bórquez / Psicóloga da Universidade do Chile. Formação de psicanalista(e), da Associação Psicanalítica Chilena. Membro do Centro de Fenómenos Sociais CEF, colaboradora do Centro Chileno de Sexualidade Humana.

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