Edição Europa

2019 Número 1

Filosofía

Ciumes

e invejas

“O ciúme ocasiona disputas pelo resguardo e a proteção da coisa amada” diz Santo Tomás (1).

Desde tempos remotos, a literatura universal – para não falar da crónica judicial –, tem demostrado que quando “a coisa amada” é um ser de carne e osso, “resguardo” e “proteção” costumam ser traduzidos em algo muito diferente daquilo imaginado pelo angelical escolástico, e que das “disputas” devêm, frequentemente, traumáticas rupturas.

Cada quem tem podido constatar que, a frequentemente os ciúmes, levam a quem o padecem, a cometer excessos inúteis e mortificantes, com o conseguinte dano para as pessoas e as suas relações. A intenção de “resguardar” e “proteger” aquilo que é amado, neste caso conduz ao contrário: ao deterioro e ao sofrimento.

Para o filósofo Humberto Giannini, a definição de santo Tomás parece válida tanto para os ciúmes amorosos como para “o ciúme funcional” (2) e isto nos ajuda a compreender melhor esta complexa estendida paixão.

Quando o objeto dos ciúmes não é uma relação amorosa, a aflição que de isto deriva é mais parecido com a inveja do que com o desejo compulsivo de dominação e de apropriação do outro.

O ciúme é manifestado, agora como aflição por não possuir o dom ou os atributos que acarreiam prestígio, gloria e/ou êxito aos outros. Esta inveja é “tristeza a causa do bem alheio” (3) e resulta ser tão dolorosa e cruel como a desconfiança e a inseguridade que corroem o amor de um casal.

A julgar pela opção de Miguel de Cervantes – alguém para quem a alma humana não guarda nenhum mistério – essa inveja, irmã dos ciúmes é a má inveja: “… dos dois que há, eu não conheço se não a santa, a noite e bem intencionada” (4). Miguel de Cervantes alude, evidentemente, à inveja sã, que promove à emulação e à superação pessoal, que nos permite nutrir das qualidades e da excelência dos outros.

• Tomas de Aquino, suma Teológica, in Humberto Giannini, do bem que se espera e do bem que se deve; p. 152, edições Dolme, Santiago, 1997.
• Ibídem
• Miguel de Cervantes, prólogo ao leitor, segunda parte do engenhoso Hidalgo Dom Quixote de la Mancha.

Gabriel Salinas / Sociólogo. Doutor em Ciências Sociais de l’ Université Libre de Bruxelles, Bélgica. Estúdio de doutoramento em filosofia na Universidade do Chile. Colaborador na APCH (Associação Chilena de Psicanálises).

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