Edição Europa

2022 Número 1

Cinema

Da magia ao sentido

Essa arriscada aventura de desafiar o mal, com o propósito de resgatar ou resguardar algo valioso que quer ser codiciosamente arrebatado ou destruído por um impulso ou a necessidade desapiedado de alguém; é ao mesmo tempo, a batalha interna de cada um de nós por libera os nossos recursos das garras das nossas próprias cobiças. Algo em nós quer tudo e mais, fácil e imediato, sem considerações e à nossa maneira.

Nos contraria a realidade com os seus múltiplos veleidades e confirmamos que estamos sozinhos e indefensos, sem saber lidar ou lutar pelo que tanto dizíamos querer. Quedamos expostos a diferentes tipos de terrores: ser devorados, anulados, paralisados, enfim, variadas formas de sentir a nossa solidão. Uma boa forma de poder lidar com isto, é partilhá-la com o nosso grupo. É assim como os treze anãos do Hobbit vão-se internando no bosque dos temores; enfrentam ao primeiro inimigo, que se lhes apresenta com duas caras, como una gárgula que ameaça e convida: mostra-se despiedado – como a realidade – e ao mesmo tempo benévolo ou protetor.

O grupo consegue sortear obstáculos incríveis, si continua viva a vontade de resgatar aquilo que é bom, contrapõe-se aos medos um recurso engenhoso que os anule. É a vontade de se salvar a que organizará os recursos e construirá um antídoto, artefato o truque que aparece sempre magicamente. É no ingênito desta fantasia ou solução mágica onde se desdobram os recursos criativos, vai-se desenvolvendo o pensamento, a empatia a coragem. Isto é o fascinante e atraente da literatura fantástica, que cai facilmente ante um exame muito realista, mas ressurge com força perante a ilusão do poder mágico.

Embora, a concorrência pelos tesouros materiais e os símbolos de poder não têm fim, ao reinar a lógica da onipotência e a magia. Só se conseguem vencer realmente os terrores, através da criação de diálogos de significados emocionais, que vão formando uma realidade alternativa, que permite pouco a pouco abandoná-los e ir mudando-os pela confiança nos vínculos. E isto se vislumbra no fim do filme.

Carolina Bórquez / Psicóloga da Universidade do Chile. Formação de psicanalista(e), da Associação Psicanalítica Chilena. Membro do Centro de Fenómenos Sociais CEF, colaboradora do Centro Chileno de Sexualidade Humana.

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