Edição Europa

2019 Número 1

Cinema

O hobbit:

A desolação de smaug

A história fantástica de Tolkien, que transcorre em bosques obscuros, montanhas azuis e desolados vales, remonta-nos ao velho épico à procura do lar perdido e arrebatado. Nesta travessia, empreendida por um grupo de anãos, um hobbit e um mago, todos devem chegar à montanha solitária e derrotar o dragão Smaug que cautela o tesouro e o antigo desmoronado reino.  Na travessia aparecerá uma variedade de criaturas, inimigos e adversidades, mas também aliados inesperados. A linguagem do filme é a aventura mágica e extraordinária, cheia de personagens mitológicos e a história desenvolve-se e cresce à volta e às muitas provas e dificuldades que vão surgindo no caminho à recuperação.

À PROCURA DE ALGO PRÓPRIO

Para quem não esteja tão familiarizado com as narrações fantásticas, esta é uma boa possibilidade de entrar no mundo mágico, que finalmente conta uma história conhecida pela maioria: a procura do que é próprio, de algo que uma vez esteve e foi certo, talvez a origem, alguma verdade e também uma dignidade e a honra.

A procura é representada em “A desolação de Smaug”, como a terra e as riquezas dos antepassados, o que lhes pertence e do que têm sido despojados. Parte da nossa história pode ser conhecida nesta trama. Um lugar, um objeto, uma verdade de grande valor que há que recuperar, por isto tem de ser dadas muitas batalhas, como una odisseia, que uma vez iniciada é quase impossível voltar atrás.

Desde aí para afrente, como ocorre com toda obra criativa, é possível viajar dentro de si mesmo em reflexões e emoções que surgem desde a subjetividade e a própria história.

A inerente necessidade da procura do humano, de ir ao passado encontrar verdades ou a concertar, quiçá seja a nossa ilusão de recuperação, porque quando se volta lá não tudo está igual: nem a terra dos antepassados e, também não somos os mesmos. No entanto, na viagem ao passado há uma reconstrução, uma nova criação e descobrimentos inesperados sobre si próprio (aliados também). É assim como a viagem não é em vão e pode-se regressar com um tesouro.

Lembrei-me dessa casa que voava, pendurado de mil globos de cores, a procurar um lugar sonhado, um sonho partilhado com a sua querida esposa, pelo velhinho do filme UP. Embora ele já não estava, o sonho e a procura igual valiam a pena.

Por quê? Porque chegar aí era uma:

Forma de voltar a encontrá-la, para despedir-se e continuar a caminhar.

Perguntei-lhe a uma criança, que foi a minha companhia durante O Hobbit, o que é que foi que mais gostou, e ele respondeu: “impressionou-se que depois de tudo, o dragão novamente vai estar a tentar destruir a cidade” (…) “não é como outras vezes, que o dragão podia tê-lo derrotado ou ele próprio poderia arrepender-se”. O dragão não tem lei e é muito forte, pensei. Os nossos dragões, vê as nossas ameaças internas são reguladas e avançamos, mas a maioria das vezes voltam a aparecer, encontram-nos melhor ou pior parados, e assim, os ciclos.

Nesta época al finalizar o ano e começar um novo, dispomo-nos a continuar a buscar e desejamos uns aos outros encontrar paz, prosperidade, amor. Só tesouros! Procurados, encontrados e uma vez mais, ameaçados. Em contraste, certas linhas de pensamento em culturas orientais mostram-nos algo diferente, interessante: deixar de procurar, observar e estar plenamente aí. Recebo-o como um belo convite.

Carla Crempien / Psicóloga clínica da Universidade do Chile. Ph(D) em Psicoterapia da Pontifícia Universidade Católica de Chile e Universidade de Heidelberg, Alemanha. Pós-graduação em terapia familiar e de casais simbólico – experiencial, Instituto de Psiquiatria e Psicologia de Santiago do Chile.

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