Edição Europa

2022 Número 1

Cinema

Philomena:

histórias que devem ser ouvidas

Que belo filme. Que magnífica atuação de Judi Dench. Que tristeza e que emoção. Submergimo-nos nesta esmagadora história (baseada factos verídicos), de uma senhora que, tendo sido mãe adolescente, foi despojada do seu bebé, pelas freiras do convento onde que vivia e 50 anos depois, empreende a procura desse filho que já tem outra vida e a sua história. É acompanhada por um jornalista sério, que, tendo ficado sem muitas alternativas na sua carreira, com bastante frustração e asceticismo, deve explorar este género de “contar histórias humanas”.

Esta história, tão lindamente contada, deixa-nos mais uma vez perplexos ante a imensa capacidade de crueldade do ser humano, contra o ser humano. O que é isso? Como explicamos isso?

Não há palavras. Neste caso, a crueldade irreparável exercida pelas freiras do convento no qual cresceu Philomena, justificada, naturalmente, em defensa do “bem superior” da pureza e a castidade, na defensa da “Verdade”. La mesma pureza e a mesma “Verdade” que tem legitimado a crueldade para as pessoas de cor, os judeus, os homossexuais, e tantos outros grupos. O cinema como outras formas de arte, tem essa possibilidade misteriosa e paradoxal de mostrar com beleza ou horror. Podemo-lo ver também no filme “Doze anos de escravidão” (Steven McQuinn) e em muitas outras.

Mas a beleza, naturalmente, não está no horror, quiçá se encontra na possibilidade de sobreviver ao trauma, na necessária homenagem a aqueles que não sobreviveram, na imensa capacidade de reparação na qual somos parte observadores ou como companheiros testemunhas.

A história traumática deve constituir-se num relato, e assim confirmar a sua realidade e o seu significado. Sim, isto aconteceu! Sim, aconteceu-lhe a alguém, e foi assim. E é o outro, quem confirma esta realidade. É na intersubjetividade da vítima e a testemunha donde emerge a experiência para ser vista e testificada, para ficar e existir no mundo, e não só na vivenda interna e isolada da vítima. Isto nos conecta por fim com os outros, e devolve-nos como humanidade e como indivíduos a responsabilidade da nossa própria separação e evolução.

A história deve ser contada e é contada ao outro.

O que é esmagador de Philomena é a bondade da protagonista, sim, assim tal qual: bondade. O amor e o apego amoroso, a capacidade infinita de perdão. E desde uma leitura complementaria; o sometimiento de Philomena e a sua impossibilidade de questionar à autoridade da infância ou a uma lealdade sin limites a um sistema de crenças; nas que o mal não pode ser infringido por quem representa ao bem, ou talvez, este deve ser perdoado sempre. É através do jornalista, o seu acompanhante e testemunha, que aparece essa voz que chama à justiça e ao espectador pode ser representado. Não há uma verdade.

Impossível não fazer referencia ao humor neste filme, e é que Philomena, faz rir! O humor é também um recurso na supervivencia e nas relações humanas, rir faz bem. A protagonista tem momentos muito engraçados, e a mais riso, mais lágrimas também, isso que se chama chorar de emoção, acontece aquí. O filme despierta tristeza, dulçura, impotência, compaixão, dor, esperança e quem sabe que outras coisas. É nesse quadro possivelmente, onde pode ser apreciada a beleza.

Carla Crempien / Psicóloga clínica da Universidade do Chile. Ph(D) em Psicoterapia da Pontifícia Universidade Católica do Chile e Universidade de Heidelberg, Alemanha. Pós-graduação em terapia familiar e de casais simbólico – experiencial, Instituto de Psiquiatria e Psicologia de Santiago do Chile.

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