Edição Europa

2019 Número 1

Teatro

A grabação:

Diálogo entre generações

O diálogo entre gerações é um dos caminhos mais fecundos para nos conhecermos e delinear a nossa identidade. Ouvir as histórias dos pais, avós e antepassados do nosso carácter, desses aspetos mais imutáveis. São histórias que se podem parecer alheias, mas que se as vemos com certa distância, começamo-nos a reconhecer em a em aspectos das suas personagens, em certas tendências ou quebras que se repetem em cada família, geração após geração.

É uma herança moral, com mandamentos e destinos que atuam como feitiços desde o berço, e que ao mesmo tempo, podem ser exemplos de heroísmo e desenvolvimento encarnando valores com coragem. Em cada história familiar pode-se ouvir uma mensagem às futuras gerações.

Às vezes encontramo-nos com silêncios que tomam formas de anonimato ou simples desconhecimento (não sabemos nada de toda uma parte da família) ou podemos ver histórias de grandes sofrimentos ou sacrifícios, situações inconclusas ou desenlaces inesperados. São feridas que não conseguiram ser traduzidas em palavras por esses congéneres, nem choradas. Por tanto, não se viveu a perda nem o luto dessa situação.

São ausências no discurso, fantasmas no relato, que deixam às novas gerações propensas a revivê-las como ameaças reais em situações de crise, e sempre expressadas de um modo não verbal, pois são de índole afetiva. Às vezes manifestam-se no corpo às vezes por meio de pesadelos ou alterações no estado de ânimo. Ameaças vigentes para as futuras gerações, que procurarão a forma de confrontá-las e resolvê-las.

No diálogo entre gerações – nesta obra trata-se de uma neta e a sua avó – há muito que conversar e neste conhecimento mútuo, abrem-se portas, perguntas e questionamentos, compreensões e respostas sobre a alma dos antepassados e da nossa história como grupo social, como país.
Este trabalho de diálogo e elaboração devia entregar as ferramentas para que as novas gerações construam soluções inovadoras e consideradas às suas circunstâncias.

A propósito de Jota I (A irmã Ji)

Baseada no livro A Minha Irmã Ji, de Marcela Paz, representar-se-á no teatro UC, a obra escrita por Luna Del Canto, que relata as aventuras da irmã mais nova de Papelucho durante um passeio à praia com a família.

Dirigida por Verónica García Huidobro, com ampla trajetória como atriz, diretora e pedagoga teatral. Gestora e Diretora da companhia “A balança: teatro e educação” (1993-2014), junto à qual tem implementado relevantes ações docentes e publicações especializadas no relativo ao teatro e à educação.

Elenco: Nicole Waak, Andrea Giadach, Franco Toledo, Antonia Bannen.

Uma história dos 60, ainda atual, pois mostra – entre outras coisas – a capacidade de encontrar espaços de conexão inicial na afeição dos mais próximos e construir a partir deles. Um exemplo literário e agora teatral da família como rede primaria e fundamental.

Carolina Bórquez / Psicóloga da Universidade de Chile. Formação de psicanalista(e), da Associação Psicanalítica Chilena. Membro do Centro de Fenómenos Sociais CEF, colaboradora do Centro Chileno de Sexualidade Humana.

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