Edição Europa

2019 Número 1

Teatro

Loucos de amor

Realidade entrampada

É uma história de amor fatal, de um amor maldito que enlouquece e atrai pela sua intensidade, pela sua irracionalidade, pela sua transgressão, que nos vai levando pelos diferentes pontos do sofrimento dos casais até um dos mais recônditos: o incesto, esse canto onde reina a loucura.

Na história de um pacto que, ao desvelar-se, rompe o seu feitiço e permite a estes amantes, que vivem condenados a nunca estar juntos e nunca se poderem separar, conhecer as suas verdades. Esse purgatório é o nível do que temem e ao que nos conecta à proibição. Esta história também nos mostra muitas versões das interdições que possa sofrer o amor.

Assim, no início estes jovens parecem dois amantes que se castigam mutuamente com indiferença, por não poder compreender os mandatos do amor, ferindo-se mutuamente com indiferença, ferindo-se mutuamente com as suas brigas, como crianças com birras e malcriadezes. Mas depois convida-nos a pensar que tais renúncias à intimidade têm ataduras em lealdades e leva-nos à casa dos nossos antepassados com os seus ídolos e quimeras. Permite-nos dialogar com eles; negociar com eles os espaços de vida que podemos desfrutar e na medida que possamos compreender nos seus próprios regramentos de mortos, conseguimos ou não sobreviver às suas restrições.

Então aparece de forma supressiva uma terceira pessoa, como ameaça de abandono, de vingança e depois, violentamente, como uma realidade assassina do amor do companheiro. Entre ataques de ciúmes e de coragem conseguem dar espaço a este “convidado de pedra”, um iminente destrutor do seu mundo hipnótico.

E este companheiro, que tem fracassado em separar-se por anos, convida-o à sua mesa e vai assimilando as versões das suas realidades internas ante o assombro desta testemunha, que é incitado a julgar, mas que só consegue ficar perplexo perante tanto sofrimento e horror. Finalmente, descobre-se o assassinato que não se cometeu, o amor que não se reconheceu, a herança que se deixou: o velório dos vivos e a ânsia dos mortos… viva a verdade! O único espaço onde o amor pode habitar!

SAM SHEPARD (1943)

Um dos dramaturgos contemporâneos mais importantes dos Estados Unidos. Ganhador de um prêmio Pulitzer, pela sua história de incesto e assassinato “Menino enterrado” (Buried Child), e nominado por “Loucos de Amor” (1983), uma relação doente que ressurge, que foi levada ao cinema.

Também foi o seu roteiro de “Paris Texas”, filme que ganhou a Palma de Ouro do festival internacional de cinema de Cannes. A solidão é um tema recorrente nas obras, que ele próprio catalogou como “Experiencia central da vida moderna”, (1) e que todos lutamos corpo a corpo para eludir, através da família, a gente que nos rodeia ou como ele, com atividades como a escritura, que é uma companhia constante.

Habitualmente planteia complexos problemas familiares, com personagens perdedores que tem renunciado aos seus sonhos e cujas vidas sem continuidade vão dando tombos de um lado a outro. Com a linguagem franca e inventiva, rituais surrealistas e elementos do absurdo, fala de ódio, sexo, ternura, violência, desprecio, medo e, claro, amor.

Segundo a crítica, Sam Shepard reflete com muita precisão e exatidão a paisagem interior e exterior da sociedade norte-americana atual.

Entrevista ao diário Paris. Espanha. 2000

Carolina Bórquez / Psicóloga de la Universidad de Chile. Formación de psicoanalista(e), de la Asociación Psicoanalítica Chilena. Miembro del Centro de Fenómenos Sociales CEF, colaboradora del Centro Chileno de Sexualidad Humana.

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