Edición Europa

2024 número 4

Soy una cuestión de identidad

Momo

A identidade com o corpo

Sente os teus ossos moverem-se debaixo da tua pele, sente o sangue a correr-te pelo corpo , encontra as curvas do teu corpo: multiplica-as.*

Como revelar a impressão do coreógrafo israelita Ohad Naharin, que virá apresentar o seu último trabalho, MOMO, a Portugal? Naharin dirigiu a companhia de dança israelita Batsheva entre 1990 e 2018, catapultando-a a uma visibilidade mundial. Parte desta visibilidade deve-se à evolução estética e metodológica a que se foi sujeitando, em conjunto com os seus bailarinos, particularmente na criação de Gaga

Quando experimentei pela primeira vez um retiro de Gaga, não sabia exactamente o que iria encontrar. Na mesma medida em que não sei o que o meu corpo precisa cada dia. A experiência, que viria a repetir todos os anos da sua edição em Portugal, contava com três facilitadores: Ya’ara Dolev (Israel), Natalia Vik (Noruega) e Hugo Marmelada (Portugal). Todos ex-bailarinos da Batsheva Company, entusiastas activadores desta sinergia de grupo.

Desenvolvido como uma linguagem, o movimento Gaga não pode ser considerado uma técnica. Trata-se de uma metodologia de investigação fenomenológica que passou a ser a base de comunicação e co-criação com os bailarinos da companhia. No entanto, por se tratar de uma pesquisa idiossincrática, é aberto a todos nós que temos uma existência física e que somos um corpo que constrói sentidos e significados. É um mergulho interno de profunda curiosidade, enquanto nos relacionamos com o exterior.

Encontra um terremoto vindo do teu centro, deixe o tremor vir inteiramente das tuas costas; quebra o teu corpo para que te possas mover num milhão de partes*.

Veículos fundamentais desta viagem de descoberta são as metáforas evocadas por quem facilita a sessão. Como reverberam as imagens descritas e se transformam em sensações corporais, e de que forma impelem o corpo a ativar-se? Que qualidades e texturas instigam? Durante o treino não há posições impostas, não há ações bem ou mal executadas, mas antes um senso singular de cada corpo na recepção dessas imagens e na expressão das mesmas, de forma cumulativa e sem paragens. Há intencionalidade impregnada de emoção, e há consciência corporal.

Toda a prática acontece de uma forma reveladora do seu carácter exploratório, e desprovido de assimetria de poder. A pessoa que facilita posiciona-se no centro e o grupo circunda-o, numa sala sem espelhos – a reflexão da imagem distrai o foco honesto na sensação e na expressão. Todos os convites verbais pretendem facilitar uma descoberta lúdica e prazenteira que não é isenta de esforço e resistência.

Flutua como se o espaço se enchesse de água. Move-te como se sentisses um sismo a partir do centro do teu corpo. Caminha como se o chão estivesse a escaldar*.

Se todos vivemos o corpo como fonte de conhecimento, numa peça de Naharin, todos os bailarinos passam pelo afinação desta escuta. Uma expressividade com a qual é possível relacionar-se e que ressoa com um recanto da nossa própria experiência. Assistir a MOMO é criar sentidos com a experiência emocional que o movimento dos bailarinos evoca. Uma espécie de verdade que está a ser corporalizada e intuída, empaticamente por quem assiste. A permissão para o corpo se manifestar na sua experiência única, na sua identidade.

*: Dicas verbais sobre o movimento Gaga, desenvolvido pela companhia Batsheva. 

 

MOMO, de Ohad Naharin com Batsheva Dance Company. 13 e 14 de Julho, Centro Cultural de Belém. 

 


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