Edição Europa

2019 Número 1

O lugar do outro

O uso da palavra “tolerância” gera certa incomodidade ou polémica, inclusive em contextos quotidianos ou interpessoais. Podemos dizer que não é um termo «fácil». Quando invocamos a tolerância podemos encontrarmo-nos com o efeito contrário: que o nosso interlocutor, desde o início, demostre uma atitude intolerante ou impaciente, o que ponha em questão o facto de ter de «tolerar» algo.  Porque é que isto acontece?

Quando mencionamos as dinâmicas pessoais ou sociais nas quais as nossas reações emocionais, prejuízos ou condutas aprendidas passam a segundo plano, suscitamos incomodidade pois requerem um exercício racional que nem sempre dispostos a pôr em prática. A tolerância, bem entendida, implica um grau de sensatez, humildade, objetividade emocional, compromisso moral e fazer algumas concessões no nosso sistema de crenças.

A interpretação de uma realidade vai depender muito da nossa percepção, dos nossos filtros culturais, pessoais e de quão dispostos estejamos a aprofundar na postura do «outro». Não interessa tanto o que pensemos sobre alguém. Não há forma de estar no seu lugar, mas temos de tentá-lo com todas as nossas formas. Se abrimos a nossa percepção deixando de lado os nossos prejuízos culturais e/ou pessoais, a tolerância pode ser uma grande ferramenta para encaixar nos âmbitos sociais e laborais.

Ter-me desenvolvido como profissional do meio teatral durante mais de vinte anos, pois embora não me tenha sido necessariamente e a priori mais tolerante, me tem aproximado ao entendimento da diversidade humana como fator essencial do desenvolvimento espiritual. O facto de assumir diferentes projetos, roteiros , equipas, diretores, infinidade de colegas de cena ou estúdio, como também da grande quantia e diversidade de personagens que se desenvolvem numa carreira mais ou menos frutífera, me tem outorgado certa apertura moral, um sentido de grupo por cima do indivíduo e a necessidade e capacidade de me colocar no lugar do outro.

O teatro é mesmo assim uma tribuna para desenvolver ou aproximar-se ao conceito de tolerância como profissional do meio ou como espetador. É verdade que é factível criar desde o conservadorismo, a meu parecer, as melhores obras da dramaturgia universal são aquelas que desde a comédia, o drama ou a tragédia, questionam dalguma maneira o «status quo».  Aquelas que apresentam perguntas às vezes incomodas, mas que são sempre úteis para as nossas vidas e que próprio facto de nos questionarmos a promulgada tolerância.

Se fazemos um paralelismo entre a relação «cena-espetador» e a de «sociedade-cidadão», poderíamos dizer que o teatro, ao servir de espelho dos nossos anelos, misérias e paixões, é uma plataforma perfeita para desenvolver esse olhar objetivo tão necessário para exercer a tolerância de forma honesta- ao ver coisas representadas em cena as podemos assimilar de um jeito diferente que quando as vivemos na própria pele ou quando as presenciamos no nosso entorno.

Em qualquer cenário (teatral ou social) haverá indivíduos e dinâmicas que podemos não gostar, mas uma dose de tolerância, qualquer que seja a intenção do termo que se aplique, será de grande utilidade.

Em sociedades uniformes, fechadas e que recriaram os mesmos costumes durante séculos ou décadas, a tolerância era praticamente um «luxo» que promoviam alguns intelectuais, artistas ou líderes de movimentos civis minoritários num esforço por expandir a consciência coletiva.

Sem ir muito longe no tempo, há setenta, sessenta ou cinquenta anos, as sociedades ocidentais nas que fazemos vida eram em geral, muito mais intolerantes. Inicialmente eram assim em ser questioná-lo, em relação à mulher e as suas reinvindicações sociais, às pessoas dom deficiências, minorias sexuais, diferenças raciais e em geral, em relação a tudo o que representasse uma diferença em relação à norma.

Nas nossas dinâmicas e interconectadas sociedades atuais a tolerância não é só uma ideia abstrata a ser analisada ou posta sobre a mesa como objeto a dissecar, senão que é praticamente indispensável para poder encaixar como cidadãos. As migrações, a globalização e a expansão dos direitos civis têm feito que a intolerância seja mais difícil de justificar, mas não devemos baixar a guarda: está sempre aí.

Muitos dos avanços culturais que temos conseguido nas últimas décadas podem-se ver desmontados de um momento a outro por encantadores de serpentes, falsos profetas e populistas. Então convém, embora com risco de ser mal interpretados, expor conceitos como tolerância, inclusão e integração, uma e outra vez, até entendermos que devem formar parte essencial e natural da nossa condição humana. Ter a certeza de que a tolerância, embora não seja suficiente, pode ser um ponto de partida comum para todos os seres humanos, independentemente das suas diferenças.

Martín Brassesco / Ator, professor, roteirista e diretor, nasceu em Uruguai e cresceu na Venezuela onde realizou a licenciatura de Artes na Universidade Central da Venezuela e desenvolveu uma carreira como ator. Domiciliado em Barcelona há 14 anos, é o Coordenador de Conteúdos de «Reflector».

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