Edição Europa

2019 Número 1

Cinema

O orgulho

Começar a ver o outro

Embora a etimologia de “tolerar” provem do latim “tolere” (suportar), o uso do conceito da tolerância é moderno. Tolerar implica uma assimetria: a parte que tolera a outra tem proeminência sobre a primeira, o seu poder é maior e por isso deixa este poder em suspenso, suportando a parte mais fraca.

As relações de tolerância existem entre países, instituições e indivíduos, mas, naturalmente implicam uma assimetria. Dois iguais não se toleram um ao outro, pois a sua potestade é igual.

Ainda assim, popularmente pensamos tolerar alguém por educação, por desprezo ou por medo. “Aguentamos” ao outro desde as nossas resignadas forças, mas isso não é tolerância.

Há um uso do termo tolerância que nos convida a entendê-lo a, por assim dizer, senti-lo desde dentro. A manifestação física de uma reação de intolerância por causa de um determinado alimento, medicamento ou substância é uma boa maneira de ilustrar um processo psíquico. No caso de uma intolerância alimentícia, perante a possibilidade de aceitar esse “outro”, de assimilá-lo, produz-se uma reação na qual nos debilitamos, pois esse “outro rejeitado” nos adoece.

O filme francês Le Brio, («O Orgulho», Yvan Attal, 2017), serve-nos para elaborar atitudes que nos levam mais além da tolerância. Encontramos uma relação assimétrica e conflitiva entre duas pessoas que pertencem ao mesmo entorno social. Ele tem mais poder, pois é professor, representante de uma instituição. E se vê a si próprio como símbolo de status e dos valores culturais que definem essa sociedade. Ela, uma jovem estudante de ascendência argelina, sabe que é objeto dos preconceitos e clichés que a sua presencia suscita; é “a outra”, essa alteridade que o aparelho digestivo da sociedade de acolhida não pode “digerir”.

Ao início, ambas personagens só verão o que cada um deles representa e simboliza para o outro, quer dizer, a máscara. Evidentemente, não se dão nada bem.

A proposta do filme baseia-se em que a colaboração é necessária entre os dois para alcançar um fim comum, implica que o melhor de cada um aflore e em consequência começam a se ver mais além das máscaras assumidas.

Quando nos vemos refletidos na intolerância do outro, no seu rejeito, o mais comum é tomar uma atitude de ataque ou de nos retirarmos ofendidos. Inclusive, como em certo momento acontece à garota do filme, aceitamos a retórica que nos mantém nesse lugar onde nos classifica a intolerância, e que em certa forma, justifica o nosso fracasso.

Começar a ver o outro lado da moeda não implica, necessariamente, aceitá-lo, mas pelo menos é um início de verdade para ambas partes. Quando no tribunal disciplinar a garota fala do professor, ele não só ouve opiniões negativas, expressadas friamente, senão também valores que ela tem descoberto nele. E é talvez neste discurso sincero, que repara nas luzes e sombras que o outro oferece, – sem cair em insultos nem elogios- onde se faz um pequeno milagre: ser reconhecido. A diferença da palavra que nos qualifica ou classifica, a palavra que nos dá o reconhecimento apazígua a violência, pois ser reconhecido é aquilo que todos procuramos e o que, em grande parte, aplaca a agressividade que se manifesta de diversas formas, suscitando sempre a rejeição.

Retomando a ideia inicial, em cada situação de assimetria que nos obrigue a ser a parte tolerante o a tolerada, podemos optar por “começar a ver” o outro, reconhecendo-o, e confiando em que a maior força que pode cada ser humano em virtude de, precisamente, sua humanidade, nasce da generosidade e compaixão. É essa força que nos vai manter vivos como espécie.

Eva Hibernia / Licenciada em Artes Cénicas pela RESAD de Madrid e cursos de Doutorado em Humanidades na Universidade Pompeu Fabra. Eva Hibernia é escritora, diretora de cena, coach de escritores e terapeuta em integração de sonhos.

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