Edição Europa

2019 Número 1

Cinema

Um refúgio

de verdade

Viver em períodos de guerra, ou sob qualquer regime que imponha mediante a força uma condição degradada dos nossos direitos básicos, que limita as nossas liberdades mais essenciais e a nossa dignidade, implica um ajuste ao nosso habitual modo de funcionar.

O medo torna-se o motor e o impulso orientador das nossas ações. O nosso organismo adapta-se para funcionar com um sistema de alerta permanente, como resposta ao perigo iminente, imprevisível, inevitável.

Quando são os nossos pares que exercem esta violência ou coerção, devemos procurar outro grupo de pertinência, que seja o nosso referente. É o que D. Tirso, dono do Circo, oferece a seus colaboradores; um novo lar, com as suas próprias regras ou leis, que os protegem do inimigo.

Isto permitia que emergisse o amor e a amizade, que os conflitos entre eles continuassem um

curso até uma resolução esclarecedora; que se desenvolvesse a criatividade, que os seus integrantes recuperassem a sua dignidade e pudessem ser leais ao seu grupo.

O perseguidor ficava fora, o que facilita a coesão, mas que também lhe impõe um carácter de presidio ao refúgio, que se tornou claustrofóbico.

A realidade não se sentia verdadeira com a saudosa família de origem, tão próxima e tão distante ao mesmo tempo. Isso incita a Mário e a Jaime a procurar contacto, a recuperar o que ficou fora, arriscando inclusive a sua vida e a dos seus seres queridos.

E encontram-se com o mais temido: Jaime com o horror e com a morte; e Mário com a verdade que faltava.

Como sobrevivente, Mário, deve assimilar a perda de toda ilusão, pois novamente a realidade vira o seu destino. É o momento em que o circo deixa de ser um refúgio e passa a ser um espaço de liberdade e vida, uma real família.

Às vezes o ser humano prefere estar pendurado de um precipício e saber a verdade, que lhe dará coerência a seu sentir, antes do que viver em algo seguro, que mais o menos funciona, mas que o mantem numa ilusão.

 Isto também acontece em tempos sociais normais, com os segredos familiares e a gestão pouco transparente da informação, que segregam uma parte da verdade, deixando no “mais além” aquilo que é temido e rejeitado, ao mesmo tempo que limitam o pensar e o sentir. E o que procuramos, refugiamo-nos em grupos fechados ou em fanatismo, onde partilhamos uma idealização, e ao mesmo tempo temos a ilusão de controlar aquilo que faz dano.

Frequentemente, descobrir uma certa verdade interior, um sentir ou um pensar proibido ou com temíveis consequências, é tão doloroso, que preferimos desviar as nossas persecuções internas a outros âmbitos (ou inimigos) perdendo coerência ao pensar e conexão ao sentir, sacrificando a nossa liberdade para amar ou viver.

Carolina Bórquez / Psicóloga da Universidade do Chile. Formação de psicanalista(e), da Associação Psicanalítica Chilena. Membro do Centro de Fenómenos Sociais CEF, colaboradora do Centro Chileno de Sexualidade Humana.

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