Edição Europa

2019 Número 1

Sociologia

Viver no presente não é viver no instante

Ressistir

Com uma generosidade que desborda amplamente os âmbitos do comercio, a moda, e os negócios, as brilhantes instalações dos templos do consumo exibem, por trás de uma aparência anódina, alguns rasgos fundamentais da nossa variada modernidade.

Vou-me deter nestas linhas na omnipresença do efêmero, do fugaz, como atributo essencial da maioria das coisas que se nos oferecem nas esplendidas vitrines das lojas, lojas de departamento, outlets e centros comerciais. (*)

De facto, todos de esta modernidade (incluídos os “bens duráveis”), têm una vida útil cada vez mais curta. Assim acontece com as novas construções, os automóveis, os eletrodomésticos, etc. Tudo isso envelhece mal e prematuramente.

Os novos materiais degradam-se prematuramente e é muito difícil hoje, encontrar um produto, uma matéria, um objeto de uso comum que possa acompanhar o seu dono durante uma longa parte da sua vida. Não acontece outra coisa com as relações interpessoais, que languidescem antes de ter amadurecido, a causa da solidão dos habitantes do deserto cidadão.

Solidão mal camuflada pela efervescência das interações das redes sociais.
O efêmero dos produtos acompanha outros rasgos da nossa maneira de existir nos tempos que correm, uma espécie de interesse neurótico pela instantaneidade. É este, um defeito perverso da nossa sui géneris modernidade, que fazem que os indivíduos subestimem o passado, o que reforça a presencia do esquecimento como uma necessidade da existência ic et nunc*.

Isto induz, ao mesmo tempo, o desinteresse pelo futuro, dando lugar a uma concentração da temporalidade da existência, a uma dimensão cronológica cuja extensão não supera o limite do instante e a sua dissolução.

Em tal exiguidade temporal, não existe nem espaço nem tempo (passe a redundância) para se ocupar de: os outros, de projetos de vida próprios e, menos ainda, da moral ou da história. Esquecemos que, viver o presente não é viver no instante; custa-nos assumir que vivemos num presente cujas raízes se encontram no passado, do qual os nossos dias têm-se nutrido e continuaram-se nutrindo, embora não o saibamos, nem o queiramos. É um presente ao qual devemos fazer durar, e que em medida de que dependa de nós, durar da melhor maneira possível.

“Significa isto que o passado existe? Não. Pelo contrário, precisamente porque já não existe são tão necessárias a memória e a fidelidade: para dar-lhe, aqui e agora, o ser que já não pussui. Se a memoria temu m deber (…) não resulta da existência do passado. Pelo contrário, porque já não existe há que relembrá-lo, porque só nos tem a nós para habitar, como passado, no presente.” (1)

De um modo análogo, devemos resistir à tentação de renunciar a nos relacionarmos com o futuro; é imprescindível assumir que o essencial do futuro, está no presente de cada dia.
“Não é preciso pensar o porvir porque exista. Pelo contrário, deve-se pensar por que não existe e depende, pelo menos em parte, do que pensamos e queremos sobre isso.” Por isso imaginação, antecipação, prudência e vontade dão tão necessárias: para fazer, aqui e agora, que “o porvir, quando esteja presente, não se afaste demasiado do que desejamos.”(2)

(1) André Comte-Sponville, O que é o tempo? Ed. Andrés Bello, 2001. Buenos Aires, Santiago de Chile, 2001.p.137
(2) André Comte-Sponville, op cit.p.138

*ic et nunc: Aqui e agora

Gabriel Salinas / Sociólogo. / Doutor em Ciências Sociais de l’ Université Libre de Bruxelles, Bélgica. Realizou o doutoramento em filosofia na Universidade do Chile. Colaborador na APCH (Associação Chilena de Psicanálises).

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